Visual de tirar o fôlego é o grande trunfo de “Doutor Estranho”

Décimo-quarto filme do universo cinematográfico da Marvel (MCU), “Doutor Estranho” parece disposto a evitar alguns dos principais vícios comuns a seus antecessores. Embora mantenha o que há de essencial nessa fórmula de sucesso, confiante na ideia de que não se deve alterar um time tão vitorioso, o diretor Scott Derrickson (“A Entidade” e “O Exorcismo de Emily Rose”) coleciona elementos de sobra para oferecer algo distinto.
Não nos deixemos enganar, porém. Passado o impacto inicial, é tarefa simples entender que essa inovação faz parte dos planos e do cronograma da empresa. Mais do que uma ousadia autoral, a decisão é utilitária. Explorar novas dimensões e esboçar discussões sobre espiritualidade são, no fim das contas, recursos necessários para suas futuras empreitadas no cinema, pois abrem possibilidades até então inéditas. Feita a ressalva, deve-se reconhecer os méritos desse capítulo, que talvez seja o mais livre de uma trajetória iniciada quase uma década atrás.
Quando se apresenta um novo herói, o lado humano carrega tanta relevância quanto a atuação em combate, auxiliada por super-poderes, acessórios e uniforme. Por essa razão, importa que o Dr. Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um famoso neurocirurgião, não seja apenas mais um playboy arrogante com vocação para liderar ações grandiosas — como Tony Stark. O que torna o personagem tão interessante são justamente seus pontos fracos.
Um acidente de carro faz aflorar nele uma enorme insegurança que, aliada à necessidade constante de provar sua capacidade, transformam sua percepção sobre o mundo e sobre ele mesmo. O caminho percorrido tem características típicas de uma jornada de redenção, mas o modo como cada nova etapa é revelada e superada difere, em certa medida, de outros produtos solo da Marvel.
“Homem-Formiga”, por exemplo, apostava no humor (muitas vezes autodepreciativo) como chave da identificação com o protagonista. Já “O Soldado Invernal” investia tanto na figura icônica do Capitão América quanto na relação pessoal entre Steve Rodgers, herói de guerra, e Bucky Barnes, soldado abatido.
Em “Doutor Estranho”, a vulnerabilidade cumpre esse papel. Por trás de uma cortina de aparências, Strange deixa transparecer suas fraquezas. Em determinado momento, ele explica sua recusa em trabalhar na emergência do hospital, que chama de “açougue”, pela falta de prestígio da função. Na realidade, porém, vemos que o risco de fracasso diante de casos complicados como o de Pangborn (Benjamin Bratt), revelado ao fim do primeiro ato, contribui para esse recuo.
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É pela necessidade de resgatar seu valor que o médico, ainda cético, desiludido e a contragosto, encontra a saída para seu problema. O treinamento, etapa fundamental na formação de qualquer herói, leva a ação até o Nepal. Também nesse momento, o longa consegue se esquivar da mesmice e fugir de comparações aparentemente inevitáveis com produções anteriores do gênero. Apresentados nesse segmento, Mordo (Chiwetel Ejiofor) e Wong (Benedict Wong) são ótimas adições a esse universo e certamente merecem maior tempo de tela.
O visual nos convence de que nem toda história de origem precisa ser banal ou somente burocrática. Quando a Anciã (Tilda Swinton) decide aconselhar Strange, unindo espiritualidade e ciência, seu comando é bastante claro: “Abra seus olhos”. Nesse mundo particular em que tempo, espaço e matéria são manipuláveis, ver é conhecer. Essa lógica cria as bases para uma das sequências mais poderosas do estúdio em toda sua existência: um show de luzes e cores que, a um só tempo, pega emprestado das páginas de Steve Ditko (o criador do personagem), se beneficia da experiência de Derrickson no cinema de horror e explora as melhores características da tecnologia 3D.
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Nos trechos em que não há separação entre corpo e espírito, contudo, o carimbo da empresa se faz mais visível. O fascínio que as viagens entre dimensões causam é logo substituído por um sem número de explicações diretas, que tratam esse aspecto místico como um manual de instruções. Mesmo durante um combate, por exemplo, aprendiz e mestre dialogam exaustivamente sobre Kaecilius (Mads Mikkelsen), como se tentassem forçar essa oposição entre bem e mal, luz e escuridão.
A exposição exagerada é o maior símbolo de uma tendência da qual a Marvel não se livrou. É possível, até provável, que a companhia sequer tenha essa ambição. De todo modo, considerando que a mitologia de “Doutor Estranho” abarca uma série de termos e objetos mágicos que cumprem propósitos específicos, deve-se comemorar que o roteiro ao menos faça uso, no clímax, das informações espalhadas ao longo de sua preparação. A capa de invisibilidade levitação, responsável por confirmar a condição de herói de Strange, é o grande destaque. O filme entende a versatilidade do acessório, e o utiliza para resolver sequências de ação, pontuar momentos específicos da ascensão do protagonista e, ainda, criar gags visuais baseadas em sua “vontade própria”.

Elemento mais marcante de obras como “Guardiões da Galáxia”, o humor não funciona tão bem aqui quanto em outras produções do MCU. Em um primeiro momento, no núcleo hospitalar, o alívio cômico se dá em função da arrogância e do ar de superioridade do personagem principal, e até encontra alguma graça quando Christine (Rachel McAdams) retruca e deixa o colega desconfortável. Iniciado o treinamento, é a ignorância de Stephen diante do vasto conhecimento da Anciã (Tilda Swinton) que serve de base para a comédia. Embora parte das piadas pareça fora de tempo, o humor baseado em situações diverte, como na cena em que a forma física de Strange dorme enquanto sua forma astral estuda compulsivamente.
Quando incorporada à estrutura, a fórmula funciona melhor. Como em outros longas do estúdio, certas imagens de fácil identificação são escolhidas e se repetem em várias ocasiões para construir sentido. Esse esquema habita todo o filme, antecipando acontecimentos e sinalizando mudanças. Em apenas três sequências, somos colocados diante de três personagens profundamente diferentes: Strange faz a barba sozinho, depois recebe ajuda e, em seguida, surge incapaz de completar a tarefa.
Em outro momento, logo após a chegada do herói à capital nepalesa, seu relógio é destruído e seu corpo, atacado. O trecho ganha importância por identificar que, ali, sua compreensão de tempo e matéria serão profundamente alteradas. Felizmente, a sensação não se restringe àquele momento: “Doutor Estranho” segue fiel a seus princípios até o fim, jamais abandonando seu potencial imersivo em prol de soluções fáceis. Nesse sentido, a beleza do confronto final é especialmente importante, porque se desvia de uma tendência incômoda do projeto cinematográfico da Marvel ao mesmo tempo em que constrói um espetáculo que seria verdadeiramente impressionante em qualquer estúdio, universo ou dimensão.

Fonte: B9

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