“Animais Fantásticos e Onde Habitam” promete, mas se contenta em ser apenas um derivado de Harry Potter

Diretas ou indiretas, continuações para a série “Harry Potter” eram inevitáveis desde o início. Uma vez definidas a inspiração, o reconhecido livro de bolso assinado por Newt Scamander, e a proposta geral, uma expansão do universo relativamente isolada dos originais no tempo e no espaço, a Warner Bros., a escritora/roteirista J. K. Rowling e o diretor David Yates pareciam ter seu produto definido. Os principais problemas de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, no entanto, estão relacionados diretamente com as decisões tomadas pelo trio.

A série passada em Hogwarts talvez seja o melhor exemplo de tratamento dado a uma franquia por um estúdio em muitas décadas. Os donos do produto souberam trabalhar ao lado da autora e das várias equipes envolvidas nas adaptações, remodelando seus visuais e temáticas gradualmente, amadurecendo durante o processo. O feito é admirável, mas há um preço a se pagar por isso.

Realizadores de diferentes origens e escalões assumiram temporariamente a condução dos filmes — foram quatro para oito (agora nove) produções. Quem mais se aproxima do posto definitivo é Yates, responsável pela função desde “A Ordem da Fênix”, de 2007. Ao mesmo tempo em que confere certa segurança graças à sua familiaridade com os elementos em jogo, ele se mostra incapaz de transpor para as telas vigor semelhante ao da escrita de Rowling.

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Diretor de repertório modesto, que inclui séries de televisão de maior ou menor sucesso e uma tentativa malsucedida chamada “A Lenda de Tarzan”, o britânico insiste em aceitar as soluções mais cômodas. Mesmo os momentos mais decisivos de “Animais Fantásticos”, que deveriam exibir suas virtudes próprias, são derivados de produtos anteriores. Embora compreensível pelas forças da indústria, a resistência em arriscar algo que ao menos pareça verdadeiramente novo incomoda ainda mais quando se percebe que esse novo exemplar tem menos ambição que segmentos inchados com o propósito claro de ampliar as receitas nas bilheterias. A primeira parte de “As Relíquias da Morte”, por exemplo, demonstra melhor as habilidades de Yates do que toda a aventura de Scamander, destacando-se do restante tanto em termos visuais quanto de ritmo.

Não se trata de rejeitar por completo o que está posto em prática aqui. O filme entrega referências para os fãs mais interessados em ver os mundos de Newt e Harry cada vez mais próximos. Há menções a nomes e sobrenomes conhecidos, objetos cultuados fazem aparições e os horizontes são ampliados, ganham novos contornos e apontam para certos rumos.

Tudo o que o universo bruxo precisava nesse momento, porém, era de uma mudança definitiva de ares — e isso Yates não é capaz de oferecer. Como um pacote fechado, “Animais Fantásticos” pouco encanta. O roteiro de Rowling, que assume o lugar de Steve Kloves, não acompanha seu talento no formato de romance. Ideias secundárias que já se perderiam em meio à trama principal acabam se tornando ainda mais apagadas graças à direção pouco inspirada, que não consegue fazer ação, terror ou romance além do mediano.

Tentativas não faltam. O ato final, por exemplo, concentra tantos feitiços e construções destruídas quanto os momentos mais intensos de “Harry Potter”. O romance inesperado que se desenvolve também entrega pouco, sem apresentar, ao longo da narrativa, algo que justifique sua importância. Há ainda uma porção de horror, um segmento inteiro centrado em Credence (Ezra Miller), que nunca se desenvolve plenamente, mesmo que o longa tente amarrar as principais pontas antes de os créditos rolarem. A dimensão política é outra que sobra, dando a sensação de ter sido acrescentada de última hora ou eliminada em partes pelas tesouras do editor Mark Day para acelerar o filme — sequências inteiras, como aquela em que o filho do dono do jornal é apresentado como candidato, parecem deslocadas do conjunto.

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Yates costumava se esquivar de críticas nesse sentido em função dos heróis que ajudou a construir. Como se Kloves aparasse as arestas do texto de Rowling na transposição livro-cinema (para desespero dos fãs, mas em prol de aventuras mais restritas e coesas), os filmes não dependiam inteiramente dos combates. Frequentemente, as reações de Harry, Hermione e Ronnie importavam e ganhavam mais destaque do que as ações de seus inimigos. Incomodava menos que houvesse um corte a cada choque entre criaturas, ou que as saídas da trama se repetissem — dinâmicas semelhantes geravam posições diferentes com o caminhar da série.

Aqui, o diretor não conta com a mesma legião de personagens, e os acenos à mitologia não são suficientes. No papel de protagonista, Eddie Redmayne se limita a alguns trejeitos, quase como uma caricatura, fazendo pouco para confirmar a força depositada nele pelo roteiro e por Dumbledore. Tina (Katherine Waterson) ameaça se tornar mais complexa, deixando no ar suas intenções e aptidões, mas acaba sabotada pelo roteiro por ter pouco a fazer. Por sua vez, o Graves de Colin Farrell é frustrante tanto pelos rumos dados pela trama quanto pelo desperdício de potencial de interpretação. Finalmente, Kowalski (Dan Fogler) serve de alívio cômico, e é uma insensatez que o filme cobre dele mais do que isso.

Falando do que realmente existe de novo, vale notar que os animais parecem buscar um público específico, cumprindo apenas a função momentânea de entreter — há menos de “fantásticos” e de “onde habitam” do que qualquer outra coisa. Como se servissem apenas de pretexto para a jornada de Scamander, os bichos funcionam melhor em piadas curtas (nas quais Pelúcio se destaca), que se concentram na primeira metade da narrativa. No fim das contas, a trama depende tanto de uma coincidência de local e horário quanto da existência das criaturas.

Em termos de ambientação, o filme tenta se beneficiar da ida para os Estados Unidos, mas pouco avança nas especificidades culturais. A relação entre bruxos e trouxas, que os originais tocam apenas levemente, é aprofundada, mas segue trabalhada superficialmente. A Nova York dos anos 20 reproduz o que há de mais convencional no cinema de época americano, e sofre pela ausência de um grande universo mágico como contraponto. A instituição do estado, que aparece aqui e ali, não se estabelece como um espaço para o que há de fantástico; ao contrário, ela é a representação da supressão dessas manifestações livres. Assim, o rompimento desse muro nunca se torna o nervo central da história, muito porque não se cria um senso de perigo real — problema frequente da franquia, que antes ao menos contava com a figura de Voldemort.

Logo na primeira interação entre Newt e Tina, o rapaz reconstrói seu apartamento do chão para simular normalidade. O temor da descoberta por parte dos no-majs, fundamental para o desenrolar da trama e eleito seu principal fator de complicação, começa a perder sua força a partir daí. Ironicamente, porque reconstruir essa fachada com tanta facilidade é que destrói as chances de um risco realmente digno de tanto alarde.

Fonte: B9

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